terça-feira, maio 05, 2009

Oumou Sangare - Seya

Há pessoas neste planeta que, felizmente, ganham volume planetário. Pessoas de tal grandeza e beleza que só de elas ter conhecimento já se me engrandece a vida. Oumou Sangare, que aqui tinha assinalado, é um desses raros exemplos. Maliniana de coração, raça e força, sublime na sua belíssima e inspiradora intervenção artística a decorar mensagens de intervenção social importantíssimas e urgentes. Aconselho a audição e leitura da informação que acompanha o seu mais recente cd, Seya (World Circuit production-WCD081).
Há cerca de três anos atrás, fui ouvi-la ao vivo num daqueles espectáculos ao ar livre, em Belém, a que só vou mesmo quando sou "fan" da criatura em palco, pouco tempo depois da partida definitiva do seu compatriota Ali Farke Toure (que me deixou muitas saudades), e a homenagem que esta senhora lhe prestou foi qualquer coisa de arrepiar.

E a propósito de "músicas do mundo"

O grupo búlgaro de vozes femininas Angelite anda em digressão pelo nosso país. Quem puder não perca, porque as famosas vozes búlgaras e o seu repertório musical são de uma beleza, por vezes, transcendente, como se pode aferir do vídeo que o You Tube nos dá a alegria de connosco partilhar. Na minha discografia já há muito as guardo como quem guarda uma jóia de valor. Aliás, para mim, não há pedras preciosas que valham tanto como certos momentos musicais.

sexta-feira, abril 17, 2009

Handel, George Frideric (1685-1759) - Hoje, Agrippina, no Teatro Nacional de S.Carlos

(Nero e Agrippina)
Estreia hoje, no Teatro Nacional de S.Carlos, o Dramma per musica in tre atti Agrippina.
Foi a segunda e última ópera que Handel compôs durante a sua estadia em Itália (1706-1710). Estreou-se no Teatro de San Giovanni Grisostomo, em Veneza, no Carnaval de 1709, data provável, 26 de Dezembro. Esta ópera constitui o primeiro grande triunfo, na carreira do compositor e foi executada 27 vezes sucessivas, sempre perante audiências entusiásticas.
O elenco foi, então, composto pela soprano Margherita Durastanti (Agrippina), o barítono Giuseppe Maria Boschi (Pallante), a sua mulher, a contralto Francesca Vanini-Boschi (Ottone), o castrato soprano Valeriano Pellegrini (Nero), Diamante Maria Scarabelli (Poppea), Antonio Francesco Carli, um baixo com um registo incrivelmente baixo (Claudius), o alto castrato Giuliano Albertini (Narcissus) e um baixo, ao que parece, padre, Nicola Pasini (Lesbus).
A parca produção operática de Handel, em Itália, deve-se ao facto de a maioria dos teatros públicos terem sido fechados por ordem do Papa. Enquanto trabalhou para dois patrões ricos,os Cardeais Pamphili e Ottoboni, compôs, para além de música sacra e dois oratórios, cerca de 80 cantatas seculares para execução privada. Havia, nesta altura, poucas diferenças, excepto na duração, entre cantata, oratório e ópera; as três dependendo da alternância entre o recitativo secco e a ária da capo*, árias de expressão emocional intensa e de forma mais ou menos dramática.
O autor do libretto foi o Cardeal Vincenzo Grimani, distinto diplomata, cuja família detinha o Teatro San Giovanni Grisostomo. O libreto, considerado dos melhores, baseia-se todo ele, à excepção do servo Lesbo, em personagens históricas. Trata-se de uma ópera que assume o espírito da Veneza do séc.XVII, na linha de Cavalli ou de Monteverdi, muito popular, na época, misturando situações cómicas com emoções sérias, aromatizadas de ironia. Trata-se, no fundo, de uma sátira à corrupção na vida da Corte. Tem sido sugerido que o Imperador Cláudio nada mais é do que uma caricatura subtil do Papa Clemente XI, de quem Grimani era opositor político.
Na maioria dos seus aspectos, a partitura, com as suas numerosas árias pequenas, segue a prática do Séc. XVII. Por exemplo, os dois pequenos grupos, um trio e um quarteto, no Primeiro Acto, em que as vozes nunca se ouvem em conjunto, também pertencem mais à tradição do que à inovação.
*Ária da capo=Forma em que a primeira parte é repetida. (Da capo=Do princípio)

quinta-feira, abril 09, 2009

Susan Sontag e Mies Van der Rohe

Tenho andado a vaguear em torno da obra e vida de Susan Sontag e deparei-me com este vídeo em que ela faz alguns comentários a uma das mais conhecidas obras do arquitecto alemão Mies Van der Rohe, The Seagram, em Nova Iorque. É um momento bem apanhado, em que ela diz algumas coisas engraçadas, cuja tradução presumo que não seja necessária. Bom, não é bem isto que queria dizer. É mais: não teria tanta graça.

"The Seagram Building gleamed like a switchblade in the autumn sun."


"The elevator swished up like a gigolo's hand on a silk stocking...."

No vídeo, o parceiro de diálogo é o arquitecto Philip Johnson, parceiro de M.V. der Rohe, na concepção deste edifício (interiores).

domingo, março 29, 2009

Só passei para dizer que:

Devido a problemas com comunicações cá por casa, net que não funciona, telefones que também não, técnicos que não resolvem os problemas, enfim, uma beleza, tenho andado mais intermitente do que o habitual. Ontem, por exemplo, era suposto fazer uma chamada de atenção para um programa cinco estrelas, de que só não usufruí por motivos bem comezinhos (surda de um ouvido, por causa da renite alérgica, tempo frio e ventoso...) mas que, para uma comodista como eu, desmobilizam o propósito: o concerto das três Marias no Centro Cultural de Cascais, por obra de João Moreira dos Santos, do JNPI, em homenagem a Luís Villas-Boas. Tive uma pena imensa de não ter comparecido. As três Marias (Anadon, João e Viana) prometiam corresponder às expectativas e, basta conferir aqui para se ver que deve ter sido bem agradável. Os dois vídeos YouTube sempre servem de lenitivo, mas sabem a pouco.

terça-feira, março 17, 2009

Yemanjazz - Uma boa descoberta


YEMANJAZZ_MininasdiCafé VCLIP from ivan goite on Vimeo.

Acabo de descobrir este grupo e corro a divulgá-lo, para já porque a sua música condiz com este Verão antecipado que nos invadiu o Inverno. É uma lufada de ar fresco em Portugal com exotismos de outros lugares. Lembra muita gente grande do jazz de fusão, Edberto Gismonti, por exemplo, mas também Coltrane, também por exemplo. Prazer em conhecê-los, Yemanjazz.

domingo, março 08, 2009

Uma prenda da nprmusic no Dia da Mulher

Para comemorar este dia, seis bons exemplos de mulheres no jazz. Nesta selecção, feita pela npr, podemos ouvir a pianista e compositora Mary Lou Williams,  a "rainha" do orgão Hammond B-3, Shirley Scott, a veneranda pianista, Marian McPartland, a pianista Geri Allen, num registo mais afro, Regina Carter, que tem, no tema aqui escolhido, a particularidade de o executar no violino que pertenceu a Paganini, um Guarneri del Gesu, tendo sido a primeira artista de jazz a quem foi permitido fazê-lo,  e Maria Schneider, a excelente compositora, orquestradora e maestrina, num tema que invoca tempos mais clássicos. 

sábado, março 07, 2009

Flores pelo 8 de Março


Antes que me passe o entusiasmo, fica já aqui escrito que li com sofreguidão a entrevista a Patti Smith, publicada esta sexta-feira no suplemento do jornal "Público", Ípsilon, a propósito da recente estreia do filme biográfico "Patti Smith: Dream of Life", já aqui referenciado. Fiquei a saber que gosta de Fernando Pessoa, que sempre sentiu fascínio por Lisboa, que, embora não beba, gosta de vinho do Porto, que também gosta de Wagner e de Waltraud Meier (cantora lírica alemã), que gosta de fado e que até tem em curso o projecto de um livro sobre Lisboa. Em resumo, temos muito em comum, o que acrescenta ainda mais ao quanto gosto dela. Uma mulher fantástica. O filme, que já tinha visto há uns meses, quando da sua primeira exibição em Lisboa, não sendo uma obra prima, consegue captar bastante do essencial para se perceber quem é Patti Smith, o que a motiva, o que a torna tão especial, a sua arte, o seu quotidiano, o seu mundo. E para assinalar o Dia da Mulher, deixo aqui umas flores do seu amigo Robert Mapplethorpe, um dos meu fotógrafos favoritos. Acho que ela também deve gostar.

segunda-feira, março 02, 2009

Orquestra sinfónica de Kinshasa


Uma amiga enviou-me este vídeo. São coisas assim que nos dão alento...

sábado, fevereiro 28, 2009

Hamlet segundo Prévert


L'Accent grave

Le Professeur

Élève Hamlet!

L'Élève Hamlet
(sursautant)
...Hein...Quoi...Pardon...Qu'est-ce qui se passe...Q'est-ce qu'il y a...Qu'est-ce que c'est?...

Le Professeur
(mécontent)
Vous ne pouvez pas répondre «présent» comme tout le monde? Pas possible, vous êtes encore dans les nuages.

L'Élève Hamlet

Être ou ne pas être dans les nuages!


Le Professeur

Suffit. Pas tant de manières. Et conjuguez-moi le verbe être, comme tout le monde, c'est tout ce que je vous demande.


L'Élève Hamlet

To be...


Le Professeur

En Français, s'il vous plaît, comme tout le monde.


L'Élève Hamlet

Bien, monsieur.
(Il conjugue:)
Je suis ou je ne suis pas.
Tu es ou tu n'est pas

Il est ou il n'est pas
Nous sommes ou nous ne sommes pas...

Le Professeur
(excessivement mécontent)
Mais c'est vous qui n'y êtes pas, mon pauvre ami!

L'Élève Hamlet

C'est exact, monsieur le professeur,

Je suis «où» je ne suis pas

Et, dans le fond, hein, à la réflexion,
Être «où» ne pas être
C'est peut-être aussi la question.

( Paroles, de Jacques Prévert)