Soube há pouco que faleceu, no dia 7 deste mês, Blossom Dearie, cantora e pianista de jazz de quem pouco se falava por estas bandas, talvez por soar muito diferente de todas as outras cantoras de jazz. Tinha uma voz suave, de ternura infantil, pouco ou nada parecida com o que se entende ser uma voz de jazz. No entanto, houve, recentemente, alguém que me fez lembrar esta vocalista. A cantora sueca Lisa Eckdahl. Sendo que aqui há um a espécie de upgrade para um estádio mais adolescente, com dose adicional de sensualidade. Mas, voltando a Blossom, ou Marguerite Blossom Dearie, tive conhecimento da sua existência através de um fanático da senhora e, na altura, não a soube apreciar. Acho que ainda hoje o não sei. Tenho um cd, que raramente ouço, e mais nada. Mas quando soube do seu desaparecimento, tive a certeza de que ela merecia muito mais atenção do que a que teve. Pelo menos da minha parte. Apreciando ou não a sua voz e o seu estilo, tenho a certeza do seu enorme mérito. E como hoje é o dia dos namorados(as), parece-me que este vídeo chega bem para o assinalar e, ao mesmo tempo, recordar essa voz, cuja doçura sempre me transcendeu (tal, aliás, como a beleza de Audrey Hepburn).
Vídeo By Fly: http://myflyaway.blogspot.com "Try Your Wings" Blossom Dearie "Breakfast At Tiffany's" Movie (Not official video/Video não oficial)
ou o jazz como filosofia sujacente à renovação no improviso da eterna procura ou o jazz como elo de ligação entre tudo o que apetece
sábado, fevereiro 14, 2009
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
Billie Holiday (1915-1959)

Já aqui coloquei um vídeo em tempos sobre Billie Holiday, ou Eleanora Fagan, mas sem lhe adicionar grandes palavras, porque a emoção de a ouvir deixa-me, quase sempre, meio "apanhada do clima". Como disse Boris Vian: "On aime ou n'aime pas Billie Holiday, mais quand on l'aime, c'est a l'a façon d'un poison". Mas, depois de ler sobre ela na revista francesa Jazzman (nº.153) do mês passado, de onde extraí esta citação, vou mesmo dedicar-lhe mais um apontamento. Destas leituras recentes fiquei a saber umas coisas mais que outras leituras, como por exemplo, a da sua autobiografia Lady Sings the Blues, me não tinham transmitido. Fiquei a saber que os seus pais nunca se casaram, ao contrário do que ela afirmava, e que, quando ela nasceu, a sua mãe, Sadie Fagan, não tinha 13 anos nem o seu pai, Clarence Holiday, 16, mas sim 19 anos, ela e 17, ele. Não é que isso tenha muita importância, apenas que andei a aldrabar algumas pessoas sem o saber. Inclusivé, estava convencida de que existia uma grande cumplicidade entre mãe e filha, o que também parece não ser totalmente verdade. Ao que parece, muito da infelicidade de Billie foi consequência da frieza e desapego com que a mãe a tratou enquanto criança. Vindo depois a mostrar-se possessiva, demasiado presente e negligente, tornou-se, apesar de tudo, na única pessoa que verdadeiramente contava na sua vida (sic Jazzman). O tema que compôs inspirado em sua mãe, God Bless the Child , reflecte, afinal, essa noção de abandono que a acompanhou até ao fim da vida.
Não vou traduzir aqui o artigo que a dita revista francesa lhe dedicou, mas vale a pena aceder à sua leitura. Está muito bem elaborado e acrescenta algumas coisas que interessam a quem gosta de ir um pouco além na percepção do que foi esta extraordinária cantora. Porque aquilo de que gostamos acaba por ser o produto final de uma vida de abusos, sofrimento, vício, onde a felicidade parecia só comparecer em palco, quando cantava para o seu público. Não sabia ler música, mas tinha um sentido rítmico e uma memória formidáveis. Faz em Julho deste ano 50 anos que morreu. Tinha apenas 44 anos e um passado de prostituição, droga, prisão e relações falhadas.
Esta homenagem da Jazzman está excelente e, repito, vale a pena lê-la para perceber como uma voz pode reflectir, não apenas um dom e técnica, mas toda uma vida que desceu aos mais profundos abismos para alcançar a eternidade.
sábado, janeiro 17, 2009
Ouvir o Village Vanguard

Estou feliz. O meu clube de jazz favorito* em Nova Iorque, The Village Vanguard, está a oferecer a possibilidade de poder-se ouvir (e até, comentar) os seus concertos em directo, através do NPR (National Public Radio), ou as gravações, caso não nos seja possível o directo. E não se paga nada (por enquanto). Nem queria acreditar. Bom, (desabafo): Se eu fôr aos Estados Unidos da América ouvir fado, czardas, ou sevilhanas, estarei sempre no sítio errado, ou apenas o meu corpo estará presente, porque a música irá transportar-me para os sítios onde a alma destas músicas se encontra. Com o jazz é o mesmo. O facto de podermos estar "presentes" no local onde tudo se conjuga - alma, raíz, acontecimento - é uma coisa perfeita, uma realização. Quero dizer: Gostava mais de lá ter estado, mas já que não me foi possível...
*Favorito porque: A nata do jazz gravou os seus concertos neste lugar; é o local de jazz de que mais gostei, em N.I.; continua com uma excelente programação.
quarta-feira, janeiro 14, 2009
Gene Krupa (1909-1973)
Faz amanhã 100 anos que nasceu Gene Krupa, considerado por alguns "o maior baterista de todos os tempos". Um portento, como podemos recordar neste vídeo.
terça-feira, janeiro 06, 2009
Domingo de manhã, na Culturgest
Chamo aqui a vossa atenção para um programa que me parece engraçado para a manhã de domingo, dia 11, às 11h, no Grande Auditório da Culturgest, cuja introdução aqui copio directamente do respectivo site.
Visando criar uma maior aproximação com a música de hoje, a OrchestrUtopica participa este ano, mais uma vez, na série de concertos comentados da Culturgest, com um programa especialmente pensado para um público alargado e de todas as idades. Este concerto propõe-se corresponder à curiosidade e ao interesse crescentes que a música contemporânea desperta, através de uma selecção de compositores e obras que serão comentadas e contextualizadas pela voz autorizada de Paolo Pinamonti. A riqueza e a diversidade da nova música, num programa que apresenta uma panorâmica sobre diferentes linguagens musicais do século XX, inicia-se com Frates, uma obra de 1977 de Arvo Pärt, compositor lituano* que propõe uma “nova simplicidade” como relação contemporânea com a música; passando por O King, de Luciano Berio, escrita em homenagem a Martin Luther King, celebrando a liberdade e a tolerância, e por Aventures, do compositor György Ligeti, uma “encenação musical” para vozes, numa linguagem imaginária. O programa do concerto termina com Invenção sobre paisagem, uma obra que sugere a imaginação e a invenção de um espaço interior de escuta, da autoria de Luís Tinoco, um dos mais activos e reconhecidos compositores portugueses. Música com comentários, num concerto aberto ao mundo da música de hoje. Uma oportunidade única para conhecer a música por dentro e para penetrar no mundo da criatividade musical dos nossos dias.
*Arvo Part nasceu na Estónia e não na Lituânia. Mas como a autoria do texto não é da cigarrajazz, esta achou por bem não o emendar.
Soprano Alexandra Moura
Visando criar uma maior aproximação com a música de hoje, a OrchestrUtopica participa este ano, mais uma vez, na série de concertos comentados da Culturgest, com um programa especialmente pensado para um público alargado e de todas as idades. Este concerto propõe-se corresponder à curiosidade e ao interesse crescentes que a música contemporânea desperta, através de uma selecção de compositores e obras que serão comentadas e contextualizadas pela voz autorizada de Paolo Pinamonti. A riqueza e a diversidade da nova música, num programa que apresenta uma panorâmica sobre diferentes linguagens musicais do século XX, inicia-se com Frates, uma obra de 1977 de Arvo Pärt, compositor lituano* que propõe uma “nova simplicidade” como relação contemporânea com a música; passando por O King, de Luciano Berio, escrita em homenagem a Martin Luther King, celebrando a liberdade e a tolerância, e por Aventures, do compositor György Ligeti, uma “encenação musical” para vozes, numa linguagem imaginária. O programa do concerto termina com Invenção sobre paisagem, uma obra que sugere a imaginação e a invenção de um espaço interior de escuta, da autoria de Luís Tinoco, um dos mais activos e reconhecidos compositores portugueses. Música com comentários, num concerto aberto ao mundo da música de hoje. Uma oportunidade única para conhecer a música por dentro e para penetrar no mundo da criatividade musical dos nossos dias.
*Arvo Part nasceu na Estónia e não na Lituânia. Mas como a autoria do texto não é da cigarrajazz, esta achou por bem não o emendar.
Soprano Alexandra Moura
Mezzo-soprano Cátia Moreso
Barítono João Merino
Maestro Cesário Costa
PROGRAMA
PROGRAMA
Arvo Pärt Frates
Luciano Berio O King
György Ligeti Aventures
Luís Tinoco Invenção sobre paisagem
Custo do bilhete: €2,5
Etiquetas:
Arvo Part,
Culturgest,
Gyorgy Ligeti,
Luciano Berio,
Luis Tinoco,
Música contemporânea,
OrchestrUtopica,
Pinamonti
segunda-feira, janeiro 05, 2009
José Duarte ou como falar jazz
(Foto de Luisa Ferreira)Desde que iniciei este blogue, há uma ideia que não me sai da cabeça: Prestar aqui uma homenagem a José Duarte. E a sua última recensão sobre o ano 2008, sob o pseudónimo de Riff deu-me, finalmente, coragem para o fazer. José Duarte, como todo o português com um mínimo de informação sabe, foi e é um dos principais divulgadores do Jazz em terras de Portugal. Digamos que sempre o fez, não só numa perspectiva de arte musical, como da sua utilização em contra-corrente política. Acima de tudo, José Duarte tem muito swing e a sua expressão verbal, oral e escrita, tem o improviso, a rebeldia e a criatividade deste género musical. O seu ar simpático, maroto, descontraído, inteligente e carismático e a sua voz única e inesquecível também contribuíram para a minha apreciação deste senhor desde os meus tempos de adolescente. Mas só há cerca de 6 anos atrás tive a dita de com ele trocar algumas palavras no Hot Clube de Portugal, coisa de que ele, certamente já não se lembra. Na minha biblioteca consta muito do que ele escreveu: Jazzé e outras músicas (Ed. Cotovia, 1994), João na terra do Jaze (Ed.A Regra do Jogo, 1981), O Papel do Jazz, 4 vols. (Ed. Cotovia, 1997-1998), colecção de cds. com livro Let's jazz em público (com a universidade de Aveiro e o jornal "Público", 2005) e cinco minutos de jazz'''''40 anos (Antena 1/BPI, 2006). Do que ele disse, também consegui reter bastante, em cassetes VHS, no programa de tv que manteve durante algum tempo, Outras Músicas, onde, para além de jazz e outras músicas, se falava também de dança, por exemplo, sendo os seus convidados, regra geral, de grande interesse artístico e intelectual. Não perdia um. E os seus programas na rádio? Os famosos A Menina Dança? e o Cinco Minutos de Jazz são, desde há muito, consideradas peças de antologia radiofónica nacional. Dele sei também que terá ajudado a fundar o Centro de Estudos de Jazz na Universidade de Aveiro, ao qual (segundo consta) doou a sua vasta colecção de discos e cds, e onde leccionou sobre o tema. Tem um vasto historial como conferencista, onde partilha a sua enorme cultura musical para o que certamente contribuío o facto de ter sido dos que mais contacto manteve com a cena jazz internacional, tendo, ao longo da sua vida, entrevistado e comungado ideais com inúmeros músicos da mais alta estirpe, como se pode ler nos seus escritos. Fez também parte do júri de críticos do concurso anual da revista norte-americana Downbeat. Escreve regularmente no site Jazz Portugal U.A. pt. E parece-me que já chega para se ter uma ideia do que José Duarte representa para mim e para Portugal. Uma pessoa de excepção. Grata pela sua existência.
(Para mais dados biográficos, favor clicar em cima do nome, no primeiro parágrafo deste post)
sexta-feira, janeiro 02, 2009
Charles Mingus - Goodbye Pork Pie Hat
Esta interpretação do tema que referi no meu post de ontem é superlativa. Trata-se de gravação ao vivo no Festival de Jazz de Montreux de 1975, da actuação de Charles Mingus (contrabaixo),Don Pullen (piano), Gerry Mulligan (sax barítono), George Adams (sax), Benny Bailey (Trompete) e Danny Richmond (bateria).
Etiquetas:
Benny Bailey,
Danny Richmond,
Don Pullen,
George Adams,
Gerry Mulligan,
jazz,
Mingus,
Montreux
quinta-feira, janeiro 01, 2009
Como começar bem o ano

Prosseguindo a tendência actual de aconselhar o próximo sobre o que deve ou não fazer com e da sua vida, vou dizer o que fiz com o meu primeiro dia do ano que, e isso é certo, acho ter sido bom para mim e para o próximo. Falo como quem não saiu para festejar em público e se manteve na sua casa, em pose de home sweet home. Comer umas coisas boas que sobraram do reveillon, beber um bom vinho tinto a acompanhar o almoço e um ou dois whiskies antes do jantar, ao som do último cd da Maria João e do Mário Laginha, Chocolate, parece-me bem para começar. Do meu dia 1 de 2009 tenho a destacar o filme que vi na tv, Don't come knocking (2005) de Wim Wenders, com Sam Shepard, Jessica Lange, Tim Roth, Gabriel Mann, Sarah Polley, Fairuza Balk, Eva Marie-Saint. Imagens que lembram Edward Hopper, sons de Marc Ribot, entre outros, co-argumento Sam Shepard. Fui apanhada de surpresa, tipo margarida influenciada pelos raios gama, e por lá fiquei. Como não gosto de dias cinzentos tive de arranjar maneira de os colorir. Quanto ao Chocolate, que já anda por aqui há algum tempo, desde que um amigo me falou dele, tenho a dizer que gosto muito, mesmo muito da segunda faixa, Goodbye Pork Pie Hat*, o adeus de Charlie Mingus a Lester Young, versão Joni Mitchell, transfigurada em versão Maria João. Parabéns, Maria João e Mário Laginha por este trabalho (Falo da obra integral e desta faixa em particular).
*words by Joni Mitchell
*music by Charles Mingus
When Charlie speaks of Lester
You know someone great has gone
The sweetest swinging music man
Had a Porkie Pig hat on
A bright star
In a dark age
When the bandstands had a thousand ways
Of refusing a black man admission
Black musician
In those days they put him in an
Underdog position
Cellars and chittlins'
When Lester took him a wife
Arm and arm went black and white
And some saw red
And drove them from their hotel bed
Love is never easy
It's short of the hope we have for happiness
Bright and sweet
Love is never easy street!
Now we are black and white
Embracing out in the lunatic
New York night
It's very unlikely we'll be driven out of town
Or be hung in a tree
That's unlikely!
Tonight these crowds
Are happy and loud
Children are up dancing in the streets
In the sticky middle of the night
Summer serenade
Of taxi horns and fun arcades
Where right or wrong
Under neon
Every feeling goes on!
For you and me
The sidewalk is a history book
And a circus
Dangerous clowns
Balancing dreadful and wonderful perceptions
They have been handed
Day by day
Generations on down
We came up from the subway
On the music midnight makes
To Charlie's bass and Lester's saxophone
In taxi horns and brakes
Now Charlie's down in Mexico
With the healers
So the sidewalk leads us with music
To two little dancers
Dancing outside a black bar
There's a sign up on the awning
It says "Pork Pie Hat Bar"
And there's black babies dancing...
Tonight!
Etiquetas:
Chocolate,
Cinema,
jazz,
Jessica Lange,
Lester Young,
Marc Ribot,
Maria João,
Mário Laginha,
Mingus,
Sam Shepard,
Tim Roth,
Wim Wenders
terça-feira, dezembro 30, 2008
R.I.P. Freddie Hubbard (1938-2008)
(Excerto do Festival de Jazz do Mt. Fuji, em 1987 - com James Spaulding, sax alto; Renee Rosnes, piano; Kenny Davis, contrabaixo; Ralph Peterson, bateria.)
Conforme se previa, Freddie Hubbard não resistiu ao ataque cardíaco que sofrera nos primeiros dias de Dezembro. A sua saúde já há muito vinha debilitando este ilustre trompetista, que relembro essencialmente com Art Blakey and the Jazz Messengers e, ao longo da sua carreira, em solos de enorme força e criatividade.
Enfim, mais uma triste notícia.
Enfim, mais uma triste notícia.
Subscrever:
Comentários (Atom)