sexta-feira, março 21, 2008

'You Must Believe In Spring' - uma lição de jazz ao piano


(jazz2511)

No dia Mundial da Poesia

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

(in "Poesia: Ó Véspera do Prodígio!", de Natália Correia, 1990)

quarta-feira, março 19, 2008

terça-feira, março 18, 2008

William Parker e os Olmecas




Dei comigo a matar saudades de um álbum que já há algum tempo faz parte da minha colecção - "Long Hidden: The Olmec Series", de William Parker (AUM036) e que, acho, merece ser aqui referenciado. William Parker, já por mim mencionado neste blogue, é um músico com uma amplitude musical do tamanho do Mundo e uma visão do tamanho do Universo, passado, presente e futuro. Basta apreciar a sua vasta produção musical, para se perceber a sua constante labuta na interligação das várias correntes musicais, numa captação de energia e espiritualidade de ordens tão diversas, com resultados tão espantosos como este exemplo que hoje aqui deixo. Como é possível juntar contrabaixo, saxofones, percussão, acordeão, doson ngoni, congas, tímbales, sons do Mali e dos Olmecas (antepassados dos Maias e dos Astecas), sem trair as suas origens, e continuar a soar a jazz? A maioria da música de fusão que conheço atraiçoa de forma intragável a alma das suas convocações. Mas, se, conforme W.Parker explica, existe uma ligação ancestral entre os povos da costa ocidental de África e os da América Central, já que os Olmecas falavam um dialecto mandingo, e tendo o jazz origens afro-americanas, talvez resida aqui a resposta para esta feliz conclusão.
Para ouvir excertos, procurar W.P. aqui , onde se podem encontrar ligações para outros lugares em que se fala desta obra e do seu autor.

sexta-feira, março 14, 2008

Ennio Morricone - O Bom, o Mau e o Vilão



Não tenho dúvidas: A banda sonora do filme de Sergio Leone, "Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo" (1966)é das melhores e mais peculiares de todos os tempos. E ouvi-la sem ver o filme não lhe tira nada, ao passo que o contrário, o filme sem ela perderia muito. Porque se este filme é magnífico, deve-o, sobretudo, ao brilhante realizador Sergio Leone (Roma,1929-1989), à excelente escolha de actores e sua impecável interpretação, e ao compositor Ennio Morricone (Roma,1928-) que conseguiu, nesta banda sonora, utilizar todos, e somente esses, os sons que traduzem as memórias das pradarias do Oeste Americano, dos seus pistoleiros, do Western que nos habituámos a ver desde sempre, na TV e no Cinema, aqui estilizados e eternizados. O mesmo diria do filme em si, já que, sem desperdício, cada uma das suas imagens eterniza e presta homenagem ao velho Western do cinema americano, e de tal forma lhe vai à essência que lembra uma caricatura muito bem esgalhada daquelas que conseguem retratar tudo o que interessa do objecto retratado - nem mais nem menos - somente isso, que é tudo.
Nunca gostei muito de westerns nem tão pouco sou grande apreciadora do estilo musical de Ennio Morricone, mas não tenho dúvidas de que tanto ele como Sergio Leone, para além da sua histórica colaboração, foram, são e serão sempre dois magníficos, cada um no seu género e os dois em conjunto.

sexta-feira, março 07, 2008

Os 60 anos de idade do HCP


O Hot Clube de Portugal festeja os seus 60 anos de idade este ano. Por motivos conjunturais da minha vida, tenho ultimamente andado arredada desse local que constitui um dos poucos de passagem obrigatória, nos meus programas de saídas nocturnas em Lisboa. Sempre gostei do espaço que, embora pequeno e se calhar por isso mesmo, tem tudo a ver com o espírito do jazz. São as memórias dos sons, do espírito e da respiração dos que por lá passaram e passam, músicos ou espectadores que enchem aquela cave e pátio ao ar livre de uma onda intimista e de partilha de uma mesma paixão: O Jazz! A programação é, regra geral, bastante interessante. Ontem, por exemplo, passaram por lá Donny McCaslin (Sax) e George Schuller (Bat).


Para mais informação, consultar o blog Jazz no País do Improviso , de João Moreira dos Santos, ler o seu livro "O Jazz Segundo Villas-Boas", publicado pela Assírio & Alvim, ou ir ao site do HCP .

Longa vida ao Hot Clube de Portugal e à sua Escola!

quinta-feira, março 06, 2008

Prémio Blogger del dia




Está na hora de passar o prémio com que este blog foi distinguido, há uns dias atrás, pelo prezado Tónica Dominante. E se algum blog o merece é o do meu amigo Valkírio, pelo bom gosto, cultura e profunda sensibilidade artística.

segunda-feira, março 03, 2008

Toru Takemitsu (1930-1996)

Já me tinha apercebido, há uns anos atrás, provavelmente através de cds que acompanham algumas revistas de música clássica que habitualmente compro, da importância deste inspirado nativo de Tóquio. Finalmente, decidi avançar um pouco mais na audição da sua obra, e, adquiri um duplo de composições para orquestra, que aconselho a quem tenha curiosidade de o conhecer. E fiquei conquistada. Notam-se, de facto, como Takemitsu, ele próprio, admitia, influências de Debussy, Webern, Schoenberg, Varése, Messiaen e até um pouco de Cage. Mas tudo convertido para algo muito mais melódico, encantatório, sugerindo matizes cromáticas, com mesclas sonoras orientais, que ele usa com muita subtileza e suavidade. O tema "Spirit Garden"(1994), da referida compilação, resume bastante bem o que acabo de escrever.

Autodidacta, começa a compor aos 16 anos, só tendo recebido algumas lições de música aos 18 anos. Ao contrário do que se poderia supor, a sua música tem muito mais influências ocidentais do que orientais, porque dizia que os sons da música tradicional japonesa lhe lembravam a guerra que lhe havia sido tão dolorosa. No entanto, graças a Cage, com quem partilhava filosofias idênticas, (por ex. a noção de silêncio, para Cage, era um plenum ao invés de um vacum, ou o enfâse nos timbres entre cada acontecimento sonoro), e ao seu interesse pela prática Zen, começou a trabalhar na introdução de elementos da cultura japonesa nas suas composições. A peça "November Steps"(1967) é disso exemplo, ao juntar à orquestra dois instrumentos japoneses: o biwa e o shakuhachi de sonoridades em absoluto deslumbrantes, embora os seus sons não se misturem com o resto da orquestra, sendo tocados em alternância com esta. Só mais tarde, e tendo aprofundado entretanto, os seus estudos sobre música japonesa, Takemitsu viria a integrá-los, de facto, no conjunto orquestral (com a peça Autumn - 1973).

Por curiosidade, refiro que Stravinsky, numa sua visita ao Japão, em 1958, descobre, por acaso, Takemitsu, através da audição da peça Requiem para cordas (1957), que muito apreciou, tendo talvez sido indirectamente responsável pelo lançamento deste no mundo cultural ocidental. A água, o mar e, principalmente, os jardins históricos japoneses são os principais motivos de inspiração na obra de Toru Takemitsu, de quem se diz ser o compositor japonês mais conhecido e admirado em todo o mundo.
Para saber mais sobre o cd-duplo, consultar aqui. E o preço é uma óptima surpresa.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Angela Hewitt

Bach - Prelúdio e Fuga em Sol Menor, nr.16 - BWV885


É espantoso, para não dizer, vergonhoso, que em concertos de música clássica não se respeite o silêncio. Sei que nem sempre é fácil evitar espirrar, tossir ou pigarrear, mas é possível (falo por mim) evitar emitir esses sons, com alguma concentração e auto-domínio. Transcrevo aqui as impressões desta fabulosa pianista e cravista canadiana, quando do seu último recital em Portugal. O vídeo não é do citado concerto, nem possuo elementos que me permitam identificar o local ou a data do recital. Quem o colocou no YT não prestou essas informações. Sorry!
Bach in Lisbon (2008-02-14)
I just finished playing my Bach marathons here in Lisbon, Portugal. It was the third time I have performed as part of the Piano Series in the Auditorium of the Gulbenkian Foundation. The large audience was on its feet at the end of Book II. When I started the first concert, the coughing was terrible, and then in the first pause after the fourth Fugue, a man in the audience yelled out something in Portuguese which of course I didn't understand, but for sure everybody heard it! I was later told that he said what I thought he had said: "Stop coughing so we can hear the music!" because after that they were considerably quieter. I hate to go on about that, but it makes such a huge difference not just to how I feel, but to the whole atmosphere in a hall. Silence is golden. A lot of coughing, I am sure, comes from a lack of concentration on the part of the listener. Enough about that. For the first time, I had a few hours to see something of Lisbon and the surrounding area, and the weather was warm and sunny. A quick trip to Sintra and along the coast with friends was very enjoyable. My former piano teacher, Jean-Paul Sevilla, came all the way to Lisbon for these concerts, and I was very happy to have him present in the hall.
(Angela Hewitt - no seu site oficial)

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Herbie Hancock ganha Grammys 2008 - Melhor Álbum


Já se esperava e aconteceu. Ganhou e com mérito, dentro do género - Herbie Hancock, que dispensa apresentações, afirmou-se com a sabedoria de quem está nestas coisas há muito tempo e sempre na linha da frente. Pegou no "cancioneiro" de Joni Mitchell e reformulou-o, com a sua (dela) participação num dos temas - para mim, o melhor do álbum, Tea leaf prophecy-, e participação de outras figuras interessantes (umas mais do que outras) da música popular americana - Tina Turner, Luciana Souza ou Leonard Cohen, por exemplo, ou Corinne Bailey Rae e Norah Jones (enfim...). Acho que foi uma atribuição justa, pelo reconhecimento da incontestável capacidade deste mestre em manter-se estóico guardião de um jazz clássico e, em simultâneo, sem fronteiras. Ratifico.